Por Laura Azeredo, Francisco Pasqual, Lara Caccia e Fernando Corrêa – WRI Brasil | A natureza no ambiente urbano cumpre um papel cada vez mais importante de tornar as cidades mais resilientes e habitáveis. Enquanto os impactos da mudança do clima se intensificam, áreas verdes reduzem as ilhas de calor e melhoram a qualidade do ar. Soluções baseadas na natureza (SBN) como parques alagáveis e jardins de chuva contribuem para a adaptação urbana, melhorando a gestão dos recursos hídricos enquanto aumentam a biodiversidade.
No Brasil, como em outros países, a expansão urbana frequentemente significou suprimir áreas naturais. Cidade tornou-se sinônimo de concreto, e mesmo praças são muitas vezes espaços cinzas com pequenos jardins. Se o acesso facilitado a espaços públicos de qualidade e áreas verdes pode ser considerado um indicador de qualidade de vida, a falta desse acesso revela a iniquidade que caracteriza as cidades brasileiras.
Reduzir essa desigualdade significa estender a parte significativa da população oportunidades de lazer, relaxamento e atividade física, enquanto se promove qualidade de vida, saúde pública, mitigação e adaptação climática. Mas para que as políticas e o planejamento possam abordar esses desafios, é preciso que o enxerguem.
Enxergar a natureza para planejar soluções
O que a natureza em áreas urbanas tem a ver com dados? No contexto de políticas públicas, tudo. Dados nos ajudam a “ver” a natureza, ou a falta dela, e a planejar ações com base em evidências. Não basta implantar soluções verdes. É preciso implantá-la nos locais onde é mais necessária, de acordo com o objetivo da política ou ação.
Para ampliar o acesso da população de renda mais baixa a espaços verdes e de lazer, pode-se cruzar um mapeamento dessas áreas com dados socioeconômicos do Censo e dados do sistema de mobilidade, incluindo rotas do transporte público e presença de ciclovias. Para priorizar a implementação de SBN para resiliência, pode-se mapear as regiões mais expostas e vulneráveis a perigos climáticos. E compreender as relações entre perigos climáticos e impactos na saúde permite às cidades construírem junto à população melhores políticas públicas para a adaptação.
A seguir, saiba mais sobre essas abordagens, implementadas em duas cidades brasileiras.
Mapear o acesso a áreas verdes
Um estudo do WRI Brasil mostrou que em Belo Horizonte a população de mais alta renda tem acesso a 5,4 vezes mais áreas verdes do que a população de renda mais baixa. Essa falta de acesso, geralmente, está associada à distribuição de espaços públicos de qualidade na área urbanizada, à oferta de modos de transporte e à localização das moradias.
A capital mineira dispõe de uma ampla base de dados abertos. Assim, os pesquisadores puderam cruzar dados georreferenciados de parques e praças, dados de GTFS (que detalham as linhas de transporte público) e os dados socioeconômicos do Censo, adaptando uma metodologia desenvolvida pelo Ipea para medir o acesso a oportunidades.
O estudo mostrou que, em uma caminhada de 15 minutos, os 10% mais ricos têm acesso a quatro vezes mais áreas verdes do que os 10% mais pobres. De transporte coletivo, a disparidade é maior: em 30 minutos, moradores de áreas ricas acessam mais de 5 vezes mais áreas verdes do que os dos bairros mais pobres.

A metodologia gera mapas que podem apoiar o planejamento de ações para ampliar a equidade e o acesso a oportunidades para populações mais vulnerabilizadas, seja priorizando a construção de áreas verdes ou a ampliação da rede de transporte sustentável que atende as regiões com os maiores déficits, ou adotando estratégias para promover novas centralidades e oportunidades de moradia próximas aos terminais de transporte e áreas verdes existentes, como o desenvolvimento orientado ao transporte sustentável (DOTS).
É possível enriquecer a metodologia incorporando aspectos qualitativos sobre as áreas verdes, como a cobertura vegetal e disponibilidade de equipamentos para diferentes grupos; e recortes que permitam medir o acesso por raça, gênero e idade, em uma abordagem interseccional de características que se combinam e podem agravar as desigualdades de acesso.

Diagnosticar exposição e vulnerabilidade para priorizar SBN
Os eventos climáticos mais frequentes e intensos afetam sobretudo as populações mais vulnerabilizadas. Nas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, famílias que ganham até dois salários mínimos foram cinco vezes mais atingidas do que aquelas que ganham de cinco a dez salários. Populações mais pobres são mais expostas. Dados do MapBiomas mostram que a porcentagem das favelas situadas em regiões de alto risco no Brasil (18%) é seis vezes maior do que a média da área urbana total (3%).
O planejamento de ações que contribuem para a adaptação de cidades, como as soluções baseadas na natureza, precisa priorizar as regiões e populações mais expostas e vulneráveis. Campinas integrou metas para a implementação de SBN em seus planos ambientais com base em uma estratégia que indica áreas prioritárias para ação, com base em análises e indicadores de vulnerabilidade a ameaças climáticas. O trabalho contou com o apoio do WRI Brasil, que aplicou metodologia similar em Belo Horizonte.

A metodologia parte de análises territoriais em que são mapeadas as principais vulnerabilidades climáticas e socioambientais, assim como os fragmentos naturais e ecossistemas. Também leva em conta as políticas ambientais existentes, de modo a potencializar sinergias em prol da adaptação. Por fim, gera um mapa de áreas prioritárias, resultado da sobreposição do mapeamento de áreas vulneráveis, de áreas prioritárias para recuperação e sugere ações com maior potencial, com base em critérios socioeconômicos, ambientais e de viabilidade. O diagnóstico territorial permite traçar planos de ação e implantação de SBN para o enfrentamento de cada perigo.
O trabalho com Campinas é objeto de um estudo do WRI Brasil a ser publicado em 2025, e serviu de insumo para o Plano Local de Ação Climática da cidade.
Visão integrada para adaptação e saúde
Sabe-se que a exposição a ameaças como calor extremo e poluição está associada a milhares de mortes todos os anos em cidades brasileiras. O acesso e o bom uso de dados sobre os riscos do calor extremo para a saúde pública são críticos para informar a definição de ações para reduzir a morbidade e mortalidade relacionadas ao calor e priorizar as populações vulneráveis.
Em Belo Horizonte e Campinas, o WRI Brasil é parte de uma iniciativa conjunta com o WRI e o projeto de Mudanças Climáticas e Saúde Urbana na América Latina (Salurbal) da Drexel University, que busca explorar o papel dos fatores sociais e do ambiente construído nos impactos do calor sobre a saúde.
Até 2026, a iniciativa combinará pesquisa e engajamento nas duas cidades, para qualificar os dados e apoiar o desenho de políticas de adaptação em processos colaborativos com o poder público e as comunidades afetadas.
Sistematização do conhecimento para replicação
A ampliação do acesso a espaços públicos de qualidade e a redução da vulnerabilidade a eventos extremos são passos importantes na construção de ambientes urbanos mais verdes, saudáveis e resilientes. Os exemplos de Campinas e Belo Horizonte evidenciam que dados de qualidade são parte do caminho para mapear desafios e orientar o planejamento de ações pelo clima, a natureza e as pessoas.
Este texto foi originalmente publicado pela WRI Brasil, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.